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Um tempo atrás II

Fazia frio muitas vezes nas minhas pernas e com ele, o alívio. 

Chamava-se vick vaporub. 

Dor muscular, diziam. Dor de crescimento. Com 1,72 essa hipótese é menos provável.

Era escuro e quando viria a dor, a tenebrosa antecipação já anunciava.

Senti o mesmo, aqui, agora, só de escrever.

Era sempre escuro. Não é metáfora.

Anúncio feito, eu esperava. Por respeito a ela, eu ainda não gritava. Mas quando chegava, a dor, eu dava o primeiro grito. Eu não suportaria muito tempo.

Ela vinha, eu ouvia o barulho da latinha se abrindo, esfregava a viscosa pasta nas mãos grandes quentes e passava na minha perna.

Eu nunca a deixava esquecer que estava doendo. Não sou bom suficiente em matemática para contar tanto tempo. Deve ser aquele dos grãos de areia na praia: finito incontável. 

Vinha o frio. Ela me secava as lágrimas e dizia que um dia iria passar. Me beijava e voltava para a sua cama. Por vezes me esperava adormecer. 

Eu não acreditava que iria passar.

Passou.

Não grito mais, não por respeito, mas porque ele não poderia mais vir.

Ainda assim, muitas vezes espero ouvir o barulho da latinha.

Eram vários nomes: pé equino, tendão curto, e outros que se perderam na insignificância.  

Hoje eu tenho lápis nas pernas para escrever.

 

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